Feeds:
Posts
Comentários

Pacote negro

Era consenso: não se ultrapassava o Vale das Sombras da Águia Negra. Ninguém sabia como era o outro lado nem o próprio vale. Do alto da colina se via apenas uma mancha negra. Todos especulavam que o local era depositário de uma enorme escultura negra da águia. Aos seus pés aconteciam os sacrifícios e os rituais de adoração. Qual não foi a surpresa da garota quando se viu carregada por uma massa disforme negra a sobrevoar a colina rumo à escuridão. Caíam em linha reta, cabeças apontadas para baixo, para o proibido. A alma do diabo deveria ser ofertada à águia. E esta alma estava instalada no corpo da garota, que ficou muito perturbada com a possibilidade de ser ela mesma o demônio. O sobrevôo deixava para trás o Vale das Sombras. A garota ainda não estava pronta e precisava ser preparada no convento. Entre ele e a casa da águia havia uma cidade muito organizada e bonita, coisa que ninguém do alto da colina podia imaginar tão perto do vale maldito. Decidiu ficar por ali a largou a massa negra que a carregava. Aterrissou na cidade, numa praça oval com um obelisco plantado ao meio. Aterrissar era como acordar, mas sabemos muito bem que abrir os olhos nem sempre indica o fim da história. E como o destino era mesmo o convento, para lá foi levado o pacote da alma do diabo. Freirinhas do mal se ocupavam do lugar. Havia prática de exercícios. O plano de fuga foi traçado durante uma caminhada. Em inglês, aparentemente uma língua de códigos própria para fugas. Mas havia a colina, o vale da águia, as freiras, um sujeito barbudo, uma janela muito alta e uma canseira bateu no corpo da garota, que só precisava dormir um pouco para ter forças de organizar um plano que sempre nascia morto. (N.V.)

Matrioshka

A primeira vez foi um sonho russo, o “Sonho Matrioshka”

Era a ânsia de estrear a prática do registro dos sonhos – precisava de um sonho qualquer, apenas que fosse curioso, engraçado ou marcante, que lhe oferecesse atributos para refletir e analisar e, a partir daí, rendesse um texto para a posteridade e para o deleite de leitores curiosos até pelo sonho alheio –, mas outro sonho foi sonhado naquela noite.

Inconscientemente o mote para o sonho tão desejado seria a realização de um amor desejado. Então, para isso, resolveu que esse seria o caminho. Seria o sonho ideal… Resolvemos que nos encontraríamos no próximo fim de semana. Seria bom passar esses dois ou três dias juntos. Você sai de Curitiba, eu saio de Brasília. Vamos nos reunir com outras pessoas juntas, para ficar mais ‘natural’. Meus primos, meu irmão e a esposa dele, são meus amigos, você vai gostar. Alugamos uma casa na Praia do Rosa – ou era a da 706 Sul? Elas se parecem… Passamos o dia ‘de preguiça’, numa cama enorme, todos deitados vendo televisão. E a gente era um casal, os dois deitados abraçados um ao outro. Éramos namorados, tínhamos intimidade e havia muita troca de carinho. Estávamos vestidos informalmente, como os casais ficam quando estão juntos, na cama, à vontade. Short surrado azul desbotado. Camiseta amassada branca.

Mas resolvemos nos juntar aos outros e ‘esticar’ para uma festa mais tarde, de noite, na casa de um primo festeiro. Nossa mesa era como essas dos bares, cheias de panfletos em cima propagandeando festa, peça de teatro. Por ela passaram várias pessoas e a geladeira onde estavam as cervejas era daquelas pequenininhas. Ah, você ‘tirava’ tantas fotos. Fotografava tudo. Na verdade, a gente registrava esses momentos como se fosse um álbum de bebê, com os primeiros momentos, o primeiro beijo, o primeiro abraço, primeira viagem, primeira vez que dormimos juntos (abraçados!), primeiro compromisso social como um casal. Você registrava com suas fotos e eu com as palavras que narravam o sonho para a estréia no mundo do registro dos sonhos. Até a nossa primeira foto H.A. foi feita.

Como num sonho anunciado, enquanto as coisas aconteciam naquele sonho tudo era anotado. Havia um medo de que aquelas lembranças (passíveis de serem esquecidas para todo o sempre se não fossem anotadas ligeiro) ficassem mais fortes e cheias de detalhes no sonho de estréia do que no sonho do amor realizado… Se tivesse como catalogar sonhos, se chamaria “Sonho Matrioshka”. Algo para ser caracterizado como um sonho dentro de outro sonho e dentro de outro sonho e… Como as bonecas russas. (S.C.)

  

O anel

A aliança no dedo queria me dizer algo. Algo sério, obviamente. Algo definitivo, um aviso, alerta talvez. Mas estava no dedo errado. Na mão errada. São cinco os dedos da mão e, pelo que sei, a aliança de casamento fica no seu vizinho da esquerda e a de noivado, no mesmo lugar do outro lado. Aquela aliança estava no maior de todos da direita, mas era uma aliança, sem dúvida. Prateada, nada mais fake, banal e, ainda assim, um anúncio de que algo grave estava para acontecer. Ele me tirou do meu delírio sobre o significado daquele círculo prateado e seus possíveis encaixes e me trouxe de volta. A peça estava na mão dele. Não na minha. O que me parecia duplamente bizarro. “É, eu estou noivo”, avisou, prestes a me dar o maior esporro da minha vida. Ou estava seriamente me dizendo que conseguiu, apesar da minha pessoa, apesar de eu ter resistido de todas as maneiras. Sim, conseguiu com outra. Acho que nesse momento respirei aliviada. Ele passava pela cidade para executar um trabalho qualquer e não me interessava muito o motivo, por isso não me fixei no detalhe. Apenas bati a porta da sala e disse; “Ótimo, parabéns, só não traga a figura para jantar. Nunca, entendeu? Nunquinha”. Bati a porta e todos riram. Gargalhadas, foi o que ouvi, já um pouco distante, já quase acordada. (N.V.)

A casa e onda

onda

A casa construída no meio do oceano parecia improvável. Mas estava lá, num cenário que nada tinha de surreal e atendia mais por extravagante. Sem dúvida era uma extravagância manter uma casa no meio do oceano, não fosse o fato de esta ser uma situação absolutamente normal naquele mundo. A casa fora comprada pela tia. Curiosamente, uma tia refratária a qualquer sinônimo de problema e dificuldade. Uma tia que não usa sapato porque chinelo é mais fácil de calçar e que evita comer em casa para não ser obrigada a lavar os pratos. A tia comprou a casa no meio do oceano e até ficou empolgada com a coisa. Mas bastou um maremotozinho para ela perceber o quanto era difícil cuidar de uma construção assim. Água por todos os lados, mofo, ferrugem, cheiros. E então veio a grande onda. A menina ficou presa lá dentro, flutuando, olhando o redemoinho se formar e pensando que, quando tudo desabasse, precisava encher bem o peito com o ar disponível para tentar nadar até a superfície. E pensou também que podia estar a alguns segundos apenas da morte e a situação toda acabou ganhando um interesse bizarro. Então era aquilo? Simplesmente podia acabar a qualquer momento sem um motivo claro e definido. Vinha uma ondazinha e apagava tudo? E olha que ela nem percebera que estava naquela situação porque dirigira o barco sem conhecer as regras da navegação marítima. Então a onda começou a quebrar e o redemoinho diminuiu. O peito encheu de ar e uma mão puxou a menina. (N.V)   

A perseguição

iluminado2

       O hotel de corredores compridos não poderia ser mais clichê. Mas era mesmo um hotel de corredores compridos com um assassino especializado em crimes hediondos a percorrer os aposentos. Alto, magro, cabelos curtos e rosto de retrato falado. Especialidade: esquartejar. Muito sangue e uma fuga. Uma cerca e um pulo. Mas ninguém acreditou. Alucinação, disseram, sonho, arriscaram. Nada disso. Dois sonhos no mesmo, talvez. Mas a cena estava lá. Eles foram ao hotel checar. Pularam de um sonho a outro, mas era o sonho errado e não encontraram nada. Prova alguma. Então voltaram. A perseguição iria continuar e merecia atenção, já que pular de um sonho a outro, como se todos acontecessem em paralelo, parecia possível. E se o assassino morresse em um sonho e sobrevivesse em outro? Seria uma perspectiva infinita de assassinos, como se um espelho os multiplicasse em sonhos-realidades paralelas. Então apareceu o cachorro filhote. E a certeza de que, em outro sonho paralelo, era ele o assassino. Então ela torceu o pescoço do cachorro. Primeiro para um lado. O bicho ensaiou um suspiro. Cinematográfico demais, simbólico demais, irreal. Mas era um sonho. Então ela torceu o pescoço para o outro lado, de modo a ter certeza de, pelo menos naquele sonho, ter dado fim ao assassino. (N.V)

Teia de suor

Foto: Sebastião Salgado

Se a teia é pastosa, o que acontece?

Difícil dizer, mas foi assim que ela viu o cenário.

     Entrou na sala e avistou o tear. Seres de formação confusa substituíam os pentes responsáveis por ajustar e apertar os fios da trama. Ela conhecia algumas coisas. Unicórnios, sereias, figuras meio gente meio bicho. Conhecia de ver, não de ouvir falar. E nem precisava ir a terras imaginárias ou inventadas para encontrá-los. Mas na sala do tear a situação era realmente fora do comum. Os seres consistiam em figuras que começavam com tronco humano e se transformavam no próprio tear. E teciam o próprio suor. Começavam gente, terminavam tear. Seus corpos aumentavam à medida que ajustavam o suor com os pentes da máquina. A malha era pastosa, bege como folha de papel de livro, melada e fétida. Horas e horas tecendo o próprio suor. Incansáveis na construção de seus corpos, imóveis à medida que o trabalho avançava, operários de si mesmos. (N.V)

Grãos

 Peneirando café, de Cândido Portinari

      O café. Ela havia esquecido o grand-finale. Estava borrada a noite. Atentado o lapso, era como se uma explosão inesperada tivesse destroçado o seu pequeno mundo perfeito. Abriu o armário da cozinha com violência. Não se importou com os convidados que tentavam orquestrar um ritmo único mesmo sem nunca terem se visto antes. Gritou como se pedisse socorro. Levantaram-se para acudi-la. Mais armários de porta aberta. O rosto vermelho dela pingava.

     Disseram que não se importavam com o café. Ela os odiou.

     Finalmente, ela apanhou uma voz baixinha. “Encontrei”. Arrancou o pacote das mãos da garota de rosto sem importância. No silêncio mortal, esquentou a chaleira. Triturou os grãos e gentilmente forrou a cafeteira com o pó. Jogou água, mexeu, completou a operação com o coador. Sorriu. Os convidados sentaram-se à mesa. Tinham medo daquele líquido negro. (D.P)

Aquela rua…

   A menina conhecia bem aquela rua. Nunca havia estado ali, mas conhecia bem. Deve ser uma dessas coisas da memória de algo não vivido. Muita gente tem. “A memória acredita antes de o conhecimento lembrar”. A menina havia lido isso em algum lugar e agora aquela rua, ali, totalmente reconhecível, parecia um desses locais em que a memória pode acreditar antes de o conhecimento lembrar.

    A menina percorreu a rua até o banco de madeira. As calçadas largas aumentavam a distância entre pedestres e carros, mas ela não podia ver os carros. Então, caminhou até o banco de madeira e sentou numa ponta. A outra ponta era ocupada por um garoto que contava histórias. Histórias que a menina já ouvira. Um rosto que ela também conhecia bem, embora, de novo, a memória acreditasse antes do conhecimento lembrar. É, ela lembrava daquele rosto, mesmo que não o conhecesse.

    Pessoas se aproximaram para ouvir as histórias do garoto. Pessoas vestidas com casacos, pessoas antigas, com roupas antigas, xales em crochê vermelho, velhinhas de chapéu com florzinha, senhores de boina e o pão comprido debaixo de braço, meninos de calças curtas e moças com saias rodadas. Foi quando a menina percebeu: estava em outra língua. E tinha nas mãos uma moeda de 10 centavos de um dinheiro que já não existe. E percebeu tudo isso ao mesmo tempo em que ficou com medo da velhinha. Velhinhas, naquela língua, são malvadas. Não gostam de meninas e garotos. Fazem cara feia para sorrisos. Por isso a menina levantou, por puro impulso, quando a última velhinha se aproximou. Não havia mais lugar no banco em que o garoto contava histórias e a velha de xale de crochê verde já fechava a cara e soltava os primeiros grunhidos para reivindicar o lugar no banco. Mas a menina foi mais rápida. Tão logo levantou, deu de cara com a loja de chocolates. Sim, uma loja de chocolates em frente ao banco e ela nem se dera conta! Era o garoto. Ele impedira que ela percebesse. Entrou na loja com os 10 centavos do dinheiro que já não existia mais. Procurou, mas só via o número 4. Tudo custava quatro. Minúsculas trufas em vidros transparentes, granulados para doces em potinhos coloridos, bombons de chocolate, tudo quatro. Até se deparar com a coisa mais esquisita de toda aquela caminhada: uma barra de três cores falando com ela.

 - Eu custo quatro, mas sou quatro pedaços. Me leva, você pode.

- Só tenho 10 centavos

- Vai dar…

    A menina saiu da loja sem a barra. Foi direto ao garoto. Olhou para os pés dele e viu que calçavam dois sapatos diferentes.

- Me empresta o sapato para comprar um chocolate de quatro cores?

- Claro

    O garoto tirou os sapatos. E menina os calçou.

- Estão um pouco largos, o garoto reparou

- Estão macios…

    E a menina voltou à loja de chocolates. De lá não saiu mais. (N.V)

Ilustração: David Modesto

      As casas de palafita podiam ser altas. Algumas chegavam a quatro andares. Já existiam quando eles chegaram, há uns dez anos, talvez um pouco mais. Eles só fizeram aumentar os andares porque precisavam viver acima de nós. Não sabemos bem como funciona a terra deles, nem mesmo se é terra, mas sabemos que respiram como nós. Na aparência, são quase humanos. Diferem em um ou outro detalhe, coisa pouca, distorções nada notáveis. No comportamento, aí sim são bem humanos, embora a espécie seja realmente outra. Gostam do poder, têm instinto conquistador, pensam e são egoístas. Não hesitam em entregar um deles em troca de algo que possa ser aproveitado em benefício próprio.

      Logo quando chegaram, houve luta. Usavam injeções com líquido alucinógeno e nos transformavam em outras espécies, seres semelhantes a eles. Nos unimos em núcleos afetivos. Curiosamente, não usamos armas convencionais. Mas seria esperançoso demais dizer que nossa força foi o afeto. Na verdade, deve ter sido algo entre gostarmos uns dos outros e termos medo de não mais existir.

      Depois da luta, houve o acordo. Eles viveriam nos andares superiores das palafitas. Nós, nas partes inferiores, rente ao chão, com o pé na terra. Eventualmente conseguimos transitar na vertical, mas é sempre muito tenso. E assim vivemos. (N.V)

Fora do lugar

Cutucou o moço de olhos e cabelos negros. Ele acendia um cigarro enquanto despejava o corpo displicentemente na parede encardida. “Ei, você sabe onde vou dormir?” Ele moveu a cabeça e espremeu os lábios. Não. Por que ele saberia de tal informação preciosa e pessoal?

Encontrou o pai. Ele apontou em direção a uma das portas abertas para uma varanda descuidada. Entrou no quarto. Tudo era feio, sujo, cor de barro. Teve nojo. Pensou em baratas. Saiu rapidamente. Tinha aula no dia seguinte.

Mesmo assim, o ambiente degradante lhe era familiar. Não que fosse recorrente em sua vida. Estava ali há alguns dias, sabia. No fundo, sentia-se esmagada. O cheiro, os rostos, as camadas de poeira.

Quis sair. Não encontrava a porta. O compromisso pulsava na cabeça como uma veia em crise. Rodava, rodava, rodava. Tinha medo daquelas pessoas. Preferiu não perguntar. E continuou numa procura agoniada. Não havia saída. Nem para ir a uma simples aula de inglês. (D.A.)

Postagens Antigas »