
Era consenso: não se ultrapassava o Vale das Sombras da Águia Negra. Ninguém sabia como era o outro lado nem o próprio vale. Do alto da colina se via apenas uma mancha negra. Todos especulavam que o local era depositário de uma enorme escultura negra da águia. Aos seus pés aconteciam os sacrifícios e os rituais de adoração. Qual não foi a surpresa da garota quando se viu carregada por uma massa disforme negra a sobrevoar a colina rumo à escuridão. Caíam em linha reta, cabeças apontadas para baixo, para o proibido. A alma do diabo deveria ser ofertada à águia. E esta alma estava instalada no corpo da garota, que ficou muito perturbada com a possibilidade de ser ela mesma o demônio. O sobrevôo deixava para trás o Vale das Sombras. A garota ainda não estava pronta e precisava ser preparada no convento. Entre ele e a casa da águia havia uma cidade muito organizada e bonita, coisa que ninguém do alto da colina podia imaginar tão perto do vale maldito. Decidiu ficar por ali a largou a massa negra que a carregava. Aterrissou na cidade, numa praça oval com um obelisco plantado ao meio. Aterrissar era como acordar, mas sabemos muito bem que abrir os olhos nem sempre indica o fim da história. E como o destino era mesmo o convento, para lá foi levado o pacote da alma do diabo. Freirinhas do mal se ocupavam do lugar. Havia prática de exercícios. O plano de fuga foi traçado durante uma caminhada. Em inglês, aparentemente uma língua de códigos própria para fugas. Mas havia a colina, o vale da águia, as freiras, um sujeito barbudo, uma janela muito alta e uma canseira bateu no corpo da garota, que só precisava dormir um pouco para ter forças de organizar um plano que sempre nascia morto. (N.V.)




Foto: Sebastião Salgado


