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A casa e onda

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A casa construída no meio do oceano parecia improvável. Mas estava lá, num cenário que nada tinha de surreal e atendia mais por extravagante. Sem dúvida era uma extravagância manter uma casa no meio do oceano, não fosse o fato de esta ser uma situação absolutamente normal naquele mundo. A casa fora comprada pela tia. Curiosamente, uma tia refratária a qualquer sinônimo de problema e dificuldade. Uma tia que não usa sapato porque chinelo é mais fácil de calçar e que evita comer em casa para não ser obrigada a lavar os pratos. A tia comprou a casa no meio do oceano e até ficou empolgada com a coisa. Mas bastou um maremotozinho para ela perceber o quanto era difícil cuidar de uma construção assim. Água por todos os lados, mofo, ferrugem, cheiros. E então veio a grande onda. A menina ficou presa lá dentro, flutuando, olhando o redemoinho se formar e pensando que, quando tudo desabasse, precisava encher bem o peito com o ar disponível para tentar nadar até a superfície. E pensou também que podia estar a alguns segundos apenas da morte e a situação toda acabou ganhando um interesse bizarro. Então era aquilo? Simplesmente podia acabar a qualquer momento sem um motivo claro e definido. Vinha uma ondazinha e apagava tudo? E olha que ela nem percebera que estava naquela situação porque dirigira o barco sem conhecer as regras da navegação marítima. Então a onda começou a quebrar e o redemoinho diminuiu. O peito encheu de ar e uma mão puxou a menina. (N.V)

 

 

A perseguição

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       O hotel de corredores compridos não poderia ser mais clichê. Mas era mesmo um hotel de corredores compridos com um assassino especializado em crimes hediondos a percorrer os aposentos. Alto, magro, cabelos curtos e rosto de retrato falado. Especialidade: esquartejar. Muito sangue e uma fuga. Uma cerca e um pulo. Mas ninguém acreditou. Alucinação, disseram, sonho, arriscaram. Nada disso. Dois sonhos no mesmo, talvez. Mas a cena estava lá. Eles foram ao hotel checar. Pularam de um sonho a outro, mas era o sonho errado e não encontraram nada. Prova alguma. Então voltaram. A perseguição iria continuar e merecia atenção, já que pular de um sonho a outro, como se todos acontecessem em paralelo, parecia possível. E se o assassino morresse em um sonho e sobrevivesse em outro? Seria uma perspectiva infinita de assassinos, como se um espelho os multiplicasse em sonhos-realidades paralelas. Então apareceu o cachorro filhote. E a certeza de que, em outro sonho paralelo, era ele o assassino. Então ela torceu o pescoço do cachorro. Primeiro para um lado. O bicho ensaiou um suspiro. Cinematográfico demais, simbólico demais, irreal. Mas era um sonho. Então ela torceu o pescoço para o outro lado, de modo a ter certeza de, pelo menos naquele sonho, ter dado fim ao assassino. (N.V)

Teia de suor

Foto: Sebastião Salgado

Se a teia é pastosa, o que acontece?

Difícil dizer, mas foi assim que ela viu o cenário.

     Entrou na sala e avistou o tear. Seres de formação confusa substituíam os pentes responsáveis por ajustar e apertar os fios da trama. Ela conhecia algumas coisas. Unicórnios, sereias, figuras meio gente meio bicho. Conhecia de ver, não de ouvir falar. E nem precisava ir a terras imaginárias ou inventadas para encontrá-los. Mas na sala do tear a situação era realmente fora do comum. Os seres consistiam em figuras que começavam com tronco humano e se transformavam no próprio tear. E teciam o próprio suor. Começavam gente, terminavam tear. Seus corpos aumentavam à medida que ajustavam o suor com os pentes da máquina. A malha era pastosa, bege como folha de papel de livro, melada e fétida. Horas e horas tecendo o próprio suor. Incansáveis na construção de seus corpos, imóveis à medida que o trabalho avançava, operários de si mesmos. (N.V)

Grãos

 Peneirando café, de Cândido Portinari

      O café. Ela havia esquecido o grand-finale. Estava borrada a noite. Atentado o lapso, era como se uma explosão inesperada tivesse destroçado o seu pequeno mundo perfeito. Abriu o armário da cozinha com violência. Não se importou com os convidados que tentavam orquestrar um ritmo único mesmo sem nunca terem se visto antes. Gritou como se pedisse socorro. Levantaram-se para acudi-la. Mais armários de porta aberta. O rosto vermelho dela pingava.

     Disseram que não se importavam com o café. Ela os odiou.

     Finalmente, ela apanhou uma voz baixinha. “Encontrei”. Arrancou o pacote das mãos da garota de rosto sem importância. No silêncio mortal, esquentou a chaleira. Triturou os grãos e gentilmente forrou a cafeteira com o pó. Jogou água, mexeu, completou a operação com o coador. Sorriu. Os convidados sentaram-se à mesa. Tinham medo daquele líquido negro. (D.P)

Aquela rua…

   A menina conhecia bem aquela rua. Nunca havia estado ali, mas conhecia bem. Deve ser uma dessas coisas da memória de algo não vivido. Muita gente tem. “A memória acredita antes de o conhecimento lembrar”. A menina havia lido isso em algum lugar e agora aquela rua, ali, totalmente reconhecível, parecia um desses locais em que a memória pode acreditar antes de o conhecimento lembrar.

    A menina percorreu a rua até o banco de madeira. As calçadas largas aumentavam a distância entre pedestres e carros, mas ela não podia ver os carros. Então, caminhou até o banco de madeira e sentou numa ponta. A outra ponta era ocupada por um garoto que contava histórias. Histórias que a menina já ouvira. Um rosto que ela também conhecia bem, embora, de novo, a memória acreditasse antes do conhecimento lembrar. É, ela lembrava daquele rosto, mesmo que não o conhecesse.

    Pessoas se aproximaram para ouvir as histórias do garoto. Pessoas vestidas com casacos, pessoas antigas, com roupas antigas, xales em crochê vermelho, velhinhas de chapéu com florzinha, senhores de boina e o pão comprido debaixo de braço, meninos de calças curtas e moças com saias rodadas. Foi quando a menina percebeu: estava em outra língua. E tinha nas mãos uma moeda de 10 centavos de um dinheiro que já não existe. E percebeu tudo isso ao mesmo tempo em que ficou com medo da velhinha. Velhinhas, naquela língua, são malvadas. Não gostam de meninas e garotos. Fazem cara feia para sorrisos. Por isso a menina levantou, por puro impulso, quando a última velhinha se aproximou. Não havia mais lugar no banco em que o garoto contava histórias e a velha de xale de crochê verde já fechava a cara e soltava os primeiros grunhidos para reivindicar o lugar no banco. Mas a menina foi mais rápida. Tão logo levantou, deu de cara com a loja de chocolates. Sim, uma loja de chocolates em frente ao banco e ela nem se dera conta! Era o garoto. Ele impedira que ela percebesse. Entrou na loja com os 10 centavos do dinheiro que já não existia mais. Procurou, mas só via o número 4. Tudo custava quatro. Minúsculas trufas em vidros transparentes, granulados para doces em potinhos coloridos, bombons de chocolate, tudo quatro. Até se deparar com a coisa mais esquisita de toda aquela caminhada: uma barra de três cores falando com ela.

 - Eu custo quatro, mas sou quatro pedaços. Me leva, você pode.

- Só tenho 10 centavos

- Vai dar…

    A menina saiu da loja sem a barra. Foi direto ao garoto. Olhou para os pés dele e viu que calçavam dois sapatos diferentes.

- Me empresta o sapato para comprar um chocolate de quatro cores?

- Claro

    O garoto tirou os sapatos. E menina os calçou.

- Estão um pouco largos, o garoto reparou

- Estão macios…

    E a menina voltou à loja de chocolates. De lá não saiu mais. (N.V)

Ilustração: David Modesto

      As casas de palafita podiam ser altas. Algumas chegavam a quatro andares. Já existiam quando eles chegaram, há uns dez anos, talvez um pouco mais. Eles só fizeram aumentar os andares porque precisavam viver acima de nós. Não sabemos bem como funciona a terra deles, nem mesmo se é terra, mas sabemos que respiram como nós. Na aparência, são quase humanos. Diferem em um ou outro detalhe, coisa pouca, distorções nada notáveis. No comportamento, aí sim são bem humanos, embora a espécie seja realmente outra. Gostam do poder, têm instinto conquistador, pensam e são egoístas. Não hesitam em entregar um deles em troca de algo que possa ser aproveitado em benefício próprio.

      Logo quando chegaram, houve luta. Usavam injeções com líquido alucinógeno e nos transformavam em outras espécies, seres semelhantes a eles. Nos unimos em núcleos afetivos. Curiosamente, não usamos armas convencionais. Mas seria esperançoso demais dizer que nossa força foi o afeto. Na verdade, deve ter sido algo entre gostarmos uns dos outros e termos medo de não mais existir.

      Depois da luta, houve o acordo. Eles viveriam nos andares superiores das palafitas. Nós, nas partes inferiores, rente ao chão, com o pé na terra. Eventualmente conseguimos transitar na vertical, mas é sempre muito tenso. E assim vivemos. (N.V)

Fora do lugar

Cutucou o moço de olhos e cabelos negros. Ele acendia um cigarro enquanto despejava o corpo displicentemente na parede encardida. “Ei, você sabe onde vou dormir?” Ele moveu a cabeça e espremeu os lábios. Não. Por que ele saberia de tal informação preciosa e pessoal?

Encontrou o pai. Ele apontou em direção a uma das portas abertas para uma varanda descuidada. Entrou no quarto. Tudo era feio, sujo, cor de barro. Teve nojo. Pensou em baratas. Saiu rapidamente. Tinha aula no dia seguinte.

Mesmo assim, o ambiente degradante lhe era familiar. Não que fosse recorrente em sua vida. Estava ali há alguns dias, sabia. No fundo, sentia-se esmagada. O cheiro, os rostos, as camadas de poeira.

Quis sair. Não encontrava a porta. O compromisso pulsava na cabeça como uma veia em crise. Rodava, rodava, rodava. Tinha medo daquelas pessoas. Preferiu não perguntar. E continuou numa procura agoniada. Não havia saída. Nem para ir a uma simples aula de inglês. (D.A.)

Floresta tropical

Foto: Peter Stubbs

      Um presente simples era apenas o começo de um tormento. Uma comemoração estava por vir e a simplicidade deveria funcionar como aperitivo, desde que o surpreendido se portasse como o autor da surpresa esperava. Se fôssemos títeres, não haveria problemas em tal equação. Mas como temos a tal da razão e somos deliciosamente imperfeitos, a equação é outra. O presente. Era simples e anunciava algo mais sério, mais grave. O combinado era ligar lá pelas 20h. Escolher restaurante, planejar os momentos da comemoração, toda essa coisa que só gente que adora rituais se empenha em fazer. Mas o telefonema veio tarde demais e o autor da surpresa esbravejou, se zangou, fechou a cara e girou o leme da história. A comemoração viraria um encontro infernal. Os pais foram levá-la ao inferno disfarçado de floresta tropical. Árvores gigantescas, pássaros de espécies extintas, uma casa-cabana em madeira clara, um verde que filtrava os raios de sol e o autor da surpresa de pé, cara fechada e braços cruzados esperando o alvo.

- Não, ela pensou, parece o sonho tropical mais tranqüilo do hemisfério sul, mas não é. Vou embora acordar que o sol me espera lá fora. (N.V)

Mi casa no é su casa

     

      Dei um passo para trás. Não estava louca, nem tinha errado de casa ou entrado numa absurda capsula do tempo. A pintura amarela, as janelas de madeira branca, o chão de pedra. A fachada continuava bem cuidada mesmo aos 6 anos de vida. Mas, raios, a porra da chave não entrava no trinco. Será que alguém tinha mudado o segredo e esqueceu de me avisar?

- Tico. Tico. Ticooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo.

      Saco. Nada do caseiro e eu ali parada, gritando na frente da casa, em plena chuva. Merda. Maldita hora que resolvi sair para comprar cigarro. Só se eu tiver errado de chave. Não, era aquela. Dourada, com os dentes pontudos que sempre machucam meu dedo quando vou retirá-la da bolsa. Perdi as contas dos arranhões que levei ao tentar arrancá-la do meio da confusão entre a carteira, o creme para as mãos, os três batons à mão para melhorar a cor dos lábios em qualquer hora do dia, da tarde ou da noite, o estojo de lápis, o moleskine inseparável, o ipod. 

      Um vulto caminha pela rua vazia. Ele tem mais sorte. Está com um guarda-chuva enquanto a água encharca até a minha calcinha. Distraio com os gritos de uma casa mais adiante. Um casal discute com palavrões violentos. Não conheço ninguém da rua mesmo, afinal, só consigo ir à minha casa de praia umas duas, três vezes por ano.

      A porta bate com o vento. Deus, o vulto entrou na minha casa! Um calafrio percorre meu corpo ensopado. Sei que soa estúpido, mas não resisti e imaginei que poderia ter sido um fantasma. De volta de meus devaneios bobos, resolvi aproveitar a brecha sem pensar muito. Talvez o Tico tivesse aberto a porta para aquele ser estranho ou coisa parecida.

      Parei no primeiro passo, chocada. Pessoas andavam de um lado para o outro da casa. Por pessoas, explico: pessoas d-e-s-c-o-n-h-e-c-i-d-a-s. Cacete, minha casa estava infestada de gente estranha numa autêntica festa esquisita. E eu no meio, sem o Eduardo ou a Mônica do Legião para me apoiar. Um saradão carregava uma toalha em direção à piscina. Outra loira sem sal parecia um abacaxi agarrado no pescoço do rapaz. Num canto da sala, duas crianças espalhavam brinquedos e riscavam o sofá. A mãe pateata folheava uma revista e fingia que não era com ela. No MEU sofá. Duas bibas brindavam enquanto tagarelavam com aquela voz forçosamente fina. Quatro quarentões jogavam cartas com os copos de whisky quase vazios.

      Corri para a cozinha. Reconheci os armários, a mesa de mármore no centro, a minha foto na geladeira. Nem sinal do Tico ou da Esmeralda, a cozinheira. As panelas empilhavam na pia e três mulheres cortavam cenouras, cebolas, alhos e tomates. Um bafo com cheiro de peixe cru quase me nocauteou no chão. Admito que sou fresca para frutos do mar. Detesto odor de peixaria. Mas, puts, aquele parecia impregnado nos armários, nos azulejos e na cozinha inteira há milênios! Decidi arriscar e enfiei o dedinho nas costas de uma daquelas invasoras:

- Quem é você, hein?

Ela nem se mexeu. Fez de conta que não ouviu e continuou no blá-blá-blá da receita.

- Dá para me responder?

      De novo, nenhum movimento na minha direção. Já sem paciência, na terceira vez preferi recolher a minha vontade de bater na mulher. Rumei para os quartos. Perdi as contas de quantas vezes a cena se repetiu. Eu cutucava e ninguém respondia. E a agonia no meu peito crescia. Sabia que a casa não estava alugada. Mas aquilo não parecia um assalto. As pessoas riam, falavam alto, brincavam umas com as outras. Parecia uma casa de verão normal… Só que não a minha!

      O desespero virou ódio. E comecei a arrancar as coisas das mãos daquelas malditas pessoas.

- Essa toalha não é sua.

- Larga essa porra desse copo.

- Não entra aí, cacete. Não está vendo que essa casa NÃO É SUA!

      Não adiantava. Elas nem se importavam com a minha presença. Quando tomei a toalha da mão do bombadinho, ele simplesmente virou e pegou outra no armário. Parei na frente da porta do banheiro com os braços estendidos numa imagem patética de proteção. A patricinha saiu sem dar uma palavra e foi para uma das suítes. Eram zumbis, e eu estava no meio do filme A lenda. O detalhe é que eles não queriam me comer.

      O que eu podia fazer? Sentar e chorar. Me preparava para abrir o berreiro como uma criança perdida dos pais e me sentir a pessoa mais idiota do mundo quando avistei o Léo. Corri na direção dele e abracei-o com força, quase derrubando nós dois no chão.

- Léo! Graças a Deus, achei você!

- Dani, que foi? – ele fez cara de espanto. Tá tudo bem?

- Não, Léo! Que porra é essa? O que essas pessoas estão fazendo aqui?

Léo estava tranqüilo demais. Será que drogaram ele?

- Dani, elas estão fazendo exatamente o que deveriam, ora, o que elas quiserem!

      Não acreditei na resposta.

- Léo, você está doido? Quem são essas pessoas?

- Os hóspedes.

- De onde?

- Da casa?

- Mas que casa?

- Essa casa?

- Léo, que conversa de doido é essa?

      Pronto, estava tudo perdido mesmo. Se nem o Léo, meu mais equilibrado e careta amigo de longa data, falava coisa com coisa… Imaginei de invasão de Ets até controle da mente.

- Você que não está fazendo sentido nenhum!

- Léo, essa é a minha casa! MINHA! E eu não tenho a menor idéia de quem sejam essas pessoas, cacete!

- Que idéia é essa? Aqui é uma casa de aluguel!

      Léo ainda demorou a me convencer. Ficamos mais uns 10 minutos no bate-boca amalucado. Até que ele me agarrou pela mão e me jogou para fora da casa.

- Tá vendo? Aquela é a SUA casa, Dani. Aquela.

      Do outro lado da rua, lá estava ela. Igualzinha. Com a parede amarela, as janelas de madeira banca e o chão de pedra. (D.A)

Anna e os zumbis

     

      Anna tinha urgência. Contava com poucos minutos do sol que queimava lá fora como se também tivesse pressa em varrer a terra das atrocidades dos últimos tempos. Anna tinha urgência, mas esbarrou nessa moça, que decidiu acompanhá-la durante o dia com a estranha justificativa de ser uma “observadora internacional”. O ano de 2007 corria já em direção ao fim e o dia de Anna era um tanto atravancado para permitir uma “observadora internacional”. A pressa, no entanto, fez Anna não perder tempo pensando na moça. O sol corria rápido e a noite não era dos humanos. Os caçadores das trevas estavam a postos assim que os últimos raios lambiam o asfalto. O ano de 2007 corria em direção ao fim e há quase uma década o mundo funcionava assim. Homens de dia, caçadores à noite. Sabe-se bem que seres humanos são também criaturas noturnas e socializam quando o sol já não está. Privados disso, no mundo de Anna, corriam o risco de virar máquinas. Por isso havia um sentido de sobrevivência no bar montado no porão. Ali a treva impregnava o ambiente mesmo que a luz intensa daquele planalto ardesse lá fora. Um bar. Um bar de atmosfera sombria em pleno dia para amenizar a inexistência da noite na vida daqueles humanos.

      Anna saiu do bar no final da tarde com a pressa de quem foge de outra vida. Precisou correr durante os últimos minutos, pulou o portão e desceu apressada as escadas do porão que servia de casa. A “observadora” seguia Anna. O sol se foi e da fresta de uma janela as duas conseguiam observar as pernas brancas e de veias inchadas dos caçadores. O medo se tornara parte da rotina dessa gente. Estavam acostumados ao medo e não fugiam mais. Quanto à situação, Anna era categórica: “Vivo assim há nove anos, não me importo mais. De qualquer forma, a noite é para dormir mesmo.” (N.V)