
Peneirando café, de Cândido Portinari
O café. Ela havia esquecido o grand-finale. Estava borrada a noite. Atentado o lapso, era como se uma explosão inesperada tivesse destroçado o seu pequeno mundo perfeito. Abriu o armário da cozinha com violência. Não se importou com os convidados que tentavam orquestrar um ritmo único mesmo sem nunca terem se visto antes. Gritou como se pedisse socorro. Levantaram-se para acudi-la. Mais armários de porta aberta. O rosto vermelho dela pingava.
Disseram que não se importavam com o café. Ela os odiou.
Finalmente, ela apanhou uma voz baixinha. “Encontrei”. Arrancou o pacote das mãos da garota de rosto sem importância. No silêncio mortal, esquentou a chaleira. Triturou os grãos e gentilmente forrou a cafeteira com o pó. Jogou água, mexeu, completou a operação com o coador. Sorriu. Os convidados sentaram-se à mesa. Tinham medo daquele líquido negro. (D.P)
Mas o café saiu ralo?
E aquele nosso café?